Um blog de recortes e de textos sobre a forma mais sensível de amar, o amor que nasce da amizade, além de outros textos sobre amor, amizade e relacionamentos entre amigos.
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Nov 10
publicado por AmorAmigo, às 21:35link do post | comentar

Tenho conversado com algumas pessoas que assistiram ao filme "Comer, Rezar, Amar", em cartaz nos cinemas, ou que leram a obra em que o filme se baseia. Para quem não sabe, trata-se de história "verídica" e "autobiográfica" de uma escritora nova-iorquina, Elizabeth Gilbert.

 

O grande erro de quem assiste ao filme já está evidenciado na frase anterior: achar que a história é factualmente verdadeira. Pois não é que quem a escreveu é uma escritora profissional? Eu penso no seguinte: na hipótese de ser tudo verdade, nenhuma de suas obras anteriores tem valor, já que a autora tinha uma vida bastante limitada, e assim enxergava o mundo.

 

Já se for tudo fantasia, ok. A única coisa diferente é que a autora conseguiu mais sucesso que os escritores de romances das séries Julia, Sabrina e outros de bancas de jornais...

 

O cineasta português João Pereira Coutinho escreveu um artigo muito interessante para a Folha.com, derrubando o filme. Para ler, clique aqui.

 

De início, o clichê do casamento que não tem mais chama e que "precisa ser trocado". Bem característico dos dias atuais: não se conversa, não se discute, não se reforma: descarta-se.

 

Depois, o clichê literário/cinematográfico da "busca e salvamento" da felicidade. Que, aliás, sempre é encontrada nos filmes... Fácil, fácil, e das maneiras mais improváveis.

 

Na fase do comer, tanto a escritora quanto a sua intérprete mantêm-se em forma, apesar de ter uma relação nada saudável com a comida. João Coutinho faz a promessa: se o filme não ganhar o Oscar de efeitos visuais, ele larga a Academia (a de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, não a de ginástica)!

 

Não destacarei os clichês italianos, tão perniciosos e ofensivos quanto os brasileiros (a propósito, ainda bem que a mulher brasileira, na grande maioria dos casos, não é aquela que pintam pelo mundo!).

 

Quanto ao rezar, vive-se a ilusão de que se conhece o ser humano recorrendo ao divino. Além de serem dimensões distintas, a crença de que uma força maior é capaz de te conduzir positivamente na vida apesar de suas contínuas ações na direção oposta é de uma inocência ímpar, mas, infelizmente, arraigada. Que o diga o filme e livro clichês.

 

(Aqui cabe um parêntese. Que fique claro que estou criticando aqueles que olham para cima para pedir tudo, antes de olhar para os lados. Aqueles que recorrem a Deus, Cristo, Alá, santos, anjos, bruxas, gnomos etc. antes de compreender o outro, antes de buscar a conciliação no âmbito das relações humanas. Critico aqueles que não se dão conta de que aquilo que pedem ao divino prejudicará outra pessoa, ou é irrelevante do ponto de vista transcendental. Aqueles que pedem o bem e fazem o mal. Quem não se lembra dos corruptos e de sua "oração da propina", agradecendo pelo dinheiro que foi roubado dos necessitados? Todos merecemos um momento de autorreflexão, para saber se não cometemos, em maior ou menor grau, os mesmos erros).

 

Ah, o amar! O amar é o ponto forte do filme, em termos da repetição dos erros. O que leva a autora ao seu novo (e segundo seu site oficial, elizabethgilbert.com, atual) relacionamento com o brasileiro radicado na Austrália é a sedução, é a atenção que o parceiro dá no início do relacionamento, como parte da conquista. O relacionamento começa e se baseia da mesma forma que todos os anteriores! Por que o fim seria distinto?

 

Surpreende, também, o fato de a escritora ter conseguido um relacionamento estável com um guia turístico, uma das profissões que mais rende relacionamentos instantâneos de que se tem notícia, dadas as condições extremamente propícias para a realizações de fantasias (amorosas, românticas e sexuais) fugazes, especialmente pela enorme distância física e social que se estabelece entre os envolvidos.

 

Ainda que a autora tenha sido uma feliz exceção, crer que, depois desta fase inicial de relacionamento, as coisas continuarão como antes, agitadas, sempre surpreendentes, é a maior ilusão que se pode criar. Até porque alguma estabilidade é bem-vinda. Ou você quer acordar cada dia com uma pessoa completamente diferente daquela com que foi dormir?

 

É alta a chance de esse filme ter uma sequência breve, de alguma alma perspicaz, no YouTube, com Elizabeth e Felipe agindo da mesma forma que começa o filme original: Liz chora no banheiro enquanto seu marido ronca no quarto. Mais um relacionamento fracassado porque baseado no mais volátil: em quase tudo na sedução inicial, na atração de corpos, e em quase nada na amizade e na afinidade de mentes e de planos futuros.

 

O conto de fadas é lindo, "felizes para sempre" uma frase dos sonhos, mas a realidade mais bonita e estável é a do AmorAmigo.

 

P.S. em 7 de dezembro: Do blog de Zé Geraldo Couto, que fala sobre cinema: "Uma última observação: os filmes 'baseados em fatos reais', daqueles em que letreiros explicam no fim o destino de cada personagem, me dão um fastio mortal. E criam no espectador mais desavisado a falsa ideia de que 'foi assim mesmo que aconteceu'. Pessoalmente, prefiro os filmes baseados em fatos irreais."


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